218 veículos são autuados por tráfego irregular no litoral cearense



 Registro feito nos feriados de Natal e Ano Novo expõe o risco aos banhistas além dos danos ao meio ambiente. Ceará possui 275 pontos demarcados cuja circulação de veículos é vetada pelo Departamento Estadual de Trânsito



Os meses de dezembro e janeiro são os períodos de maior movimentação nas praias do litoral cearense. Junto ao aumento do fluxo de banhistas e turistas, cresce, no entanto, o tráfego irregular na faixa de areia. Somente no feriado prolongado de fim de ano, o Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE) registrou 113 infrações que, somadas às 105 já contabilizadas no feriado de Natal, totalizaram 218 veículos autuados por trafegar em área proibida.

O alto número expõe uma realidade preocupante. Com tantos veículos na orla marítima, além do iminente risco aos banhistas, há uma grave ameaça ao meio ambiente. O professor e pesquisador do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC), Rivelino Cavalcante, adverte que "a emissão da queima do combustível dos veículos produz substâncias tóxicas e até carcinogênicas" e, portanto, considera que "ambientes naturais não são apropriados para o trafego de veículos, para tal existem as rodovias", afirma.

O professor e geógrafo Marcus Vinicius, do curso de Ciências Ambientais da UFC, contudo, visualiza duas perspectivas opostas. Ele corrobora que o tráfego gera danos, como "sonoro e de geração de resíduos". Mas assente que existe o "impacto positivo de todo um 'trend turístico' que se sustenta o litoral (donos de pousadas, barraqueiros, bugueiros, artesanato local, comercio local)".

Por outro prisma

O presidente da Federação Offroad do Estado do Ceará (Force), Giovanni Morano, reconhece que "veículos não devem trafegar em locais onde ocorram o fluxo de pessoas", mas considera ser necessário a liberação de áreas "para a prática da modalidade, que vem crescendo e se constitui em um importante nicho do turismo de aventura".

Atualmente, o Detran mapeia 275 locais nos litorais Oeste e Leste que são expressamente proibidos a circulação de veículos. Nos demais pontos, onde não há sinalização, a Force avalia ser permitido. "Como não há demarcação, ou jurisdição, consideramos ser liberado o tráfego, até por serem áreas que não há barracas, hotéis, restaurantes ou fluxo de pessoas", disse Giovanni.

Para o Detran, essa análise não está correta. Júlio Cavalcanti, diretor de Trânsito do Detran, explica que as áreas que não estejam demarcadas podem ser de proteção ambiental e, deste modo, não cabe ao órgão fazer a sinalização e fiscalização, e sim "os órgãos competentes ligados à área de Meio Ambiente". Ele acrescenta que o Detran fiscaliza apenas com base na lei de trânsito, no entanto, em outra área, que eventualmente não tenha fluxo, de pedestres ou veículos, "pode ser área de reserva, pode existir desova de tartaruga e várias outras questões de meio ambiente que fogem da jurisdição do Detran, mas que inspiram atenção", pontua Júlio.

Audiência

Na busca pela regularização de locais específicos para trafegar, a Force participou de uma audiência em 2019 com a presença de representantes do Detran, Secretaria de Meio Ambiente do Estado e autarquias municipais de trânsito. O intuito, segundo Giovanni, é redesenhar as áreas proibidas e especificar quais locais podem se tornar zonas livres.

O presidente da Federação considera que essa liberação oficial pode reduzir o fluxo de veículos em áreas irregulares, "gerando maior segurança aos pedestres e de certa forma protegendo a natureza, uma vez que seguimos uma série de normas presentes em nosso estatuto". Marcus Vinicius também vê positivamente esse processo de novo mapeamento.

"Esta normatização permite que locais ambientalmente favoráveis a esta atividade sejam liberados e os sensíveis sejam bloqueados, por exemplo: o mangue do Camocim é para ser bloqueado em contrapartida o litoral retilíneo de Aquiraz-Beberibe pode ser liberado", avalia. Ele adverte ser fundamental que neste redesenho "seja levado em consideração a sensibilidade ambiental e econômica dos locais". Em sua visão, a liberação não vai "agravar a degradação, pelo contrário, vai proteger e controlar áreas antes não protegidas".

Morano acrescenta que "os benefícios da nossa atividade podem ser observados em outras esferas: ministramos cursos para viaturas que trabalham no litoral, como Bombeiros, BP Tur e ambulâncias, tudo gratuitamente e orientamos nossos integrantes a respeitarem todas as normas".


Diário do Nordeste

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