Mulheres ocupam cargos de comando em facções do Ceará



O crime organizado vive em constante mutação, para fugir da lei e se manter. Uma das movimentações observadas pelas autoridades nos últimos anos, no Ceará, foi o crescimento das mulheres dentro das facções criminosas. Elas passaram a assumir posições de comando e de confiança.

Investigações policiais apontam que uma organização criminosa de origem carioca, que atua em todo o Brasil, tem uma mulher como uma das principais lideranças em território cearense. Almerinda Marla Barbosa de Sousa, a Irmã Ruiva', de 40 anos, ocupa a função de conselheira na facção, com atuação no bairro Maraponga e arredores, em Fortaleza, segundo documento da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), da Polícia Civil do Ceará (PCCE).

A extração de dados dos aparelhos celulares apreendidos com 'Irmã Ruiva', feita com autorização da Justiça Estadual, mostrou que ela negociava armas, participava de discussões sobre a briga por territórios e recebia comprovantes de depósitos bancários, em conversas com outros membros da facção. O dinheiro repassado a ela ia para a "caixinha" do grupo criminoso.

'Irmã Ruiva' foi acusada de ser uma das mandantes dos ataques criminosos que atingiram bens públicos e privados no Ceará em janeiro de 2019 e figurou na lista do Programa Estadual de Recompensa da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), com pagamento de recompensa de R$ 5 mil por informações sobre a localização dela. Almerinda de Sousa terminou sendo presa no Município de Jijoca de Jericoacoara, em novembro de 2020.

Após a prisão de 'Irmã Ruiva', 'Majestade' ascendeu na facção. Valeska Pereira Monteiro assumiu em 2021 o papel de "tesoureira", a principal responsável pela contabilidade financeira da facção carioca no Ceará, respondendo direto ao líder máximo do grupo criminoso no Estado, Max Miliano Machado da Silva - capturado em fevereiro deste ano no Estado do Pará.

Outra investigação da Draco identificou que 'Majestade' passou a administrar o 'Quadro da Biqueira' da facção (termo utilizado para se referir à lista de pontos de venda de drogas) em junho deste ano, através do aplicativo WhatsApp. Em alguns dias, ela recebeu, em seu aparelho celular, mais de 1,7 mil cadastros, com informações sobre o responsável pelo ponto, vendedores, endereço e contato. A mulher acabou presa em Gramado, no Rio Grande do Sul, em agosto deste ano.

Há ainda outros casos de mulheres que assumem papéis de confiança dentro da facção carioca. Como Maria Capelinne Martins Rodrigues, suspeita de ser a responsável pela logística e contabilidade do tráfico de drogas do grupo liderado por Francisco Cilas de Moura Araújo, o 'Mago', em Caucaia. E Angelina Custódio da Silva, a 'Angelina Jolie', chefe de uma quadrilha em Pacajus e suspeita de torturar e matar uma mulher naquele Município.

Já em uma facção cearense, pelo menos cinco mulheres chegaram a posições de confiança da chefia. Reportagem do Diário do Nordeste publicada em janeiro deste ano mostrou que a esposa e irmãs de líderes da organização criminosa assumiram funções estratégicas para controlar o tráfico de drogas e as finanças da facção, com a prisão dos familiares.

MULHER CRESCEU NOS CAMPOS LEGAIS E ILEGAIS

Uma fonte da Inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) afirma que "a mulher, hoje, no crime, não faz mais o papel que ela fazia antes, até meados dos anos de 2012, 2013, quando o trabalho dela era prioritariamente doméstico, visitar o companheiro na cadeia e cuidar do filho aqui fora. Ela não se envolvia".

A mulher é mais discreta e passa mais confiança para os chefes das facções criminosas, principalmente se eles tiverem um relacionamento amoroso, segundo a fonte da Inteligência. "Devido as traições dos próprios companheiros de organização criminosa, que gera a dilapidação do patrimônio dos chefes de facção presos, para manter esse mesmo poder que ele tem aqui fora - ainda mais com as restrições que têm sido impostas pela gestão dos presídios - eles (presos) precisam que as mulheres fiquem no comando das facções, tanto na parte da cobrança, como na parte da logística, na distribuição e na lavagem do dinheiro (do tráfico)", conta.

Tem ocorrido muito isso aqui (mulheres no comando). Porque, quanto mais restrito lá (nos presídios), visitas, comunicação, celular, fica mais difícil para ele (chefe) manter o poder que tinha aqui fora. Então, quem faz esse papel hoje é a pessoa que pode visitar, que são as esposas, principalmente, ou outras mulheres da família".
Fonte da Inteligência da SSPDS

"Em compensação, com o aumento delas no comando, aumenta o número de assassinato de mulheres pelas facções rivais. Isso tem crescido bastante em todas as áreas da Região Metropolitana e da Capital", revela a fonte.

Em 2021, 298 mulheres já foram mortas no Ceará (entre janeiro e outubro), o que representa 10,3% de todos os Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), conforme dados da SSPDS. O percentual do ano corrente é maior que de todo o ano de 2020, quando 8,3% das vítimas de homicídios eram mulheres, ou seja, 336 pessoas.

Um advogado criminalista, que atende clientes ligados a facções criminosas e pediu para não ser identificado, corrobora que a o crime acompanha a sociedade e que a mulher "cresceu em todos os campos legais e também ilegais, ou seja, ela está ocupando posições e espaço".

O segundo ponto é a questão da mulher, a esposa, é a herdeira do criminoso, às vezes pela morte. Vamos lembrar que está tendo uma guerra, muito faccionado morrendo e, quando ele morre, ele deixa um legado e vai ser acompanhado por alguém. Geralmente é pela esposa. Eu conheço casos que são pela filha, pela mãe."
Advogado criminalista

Às vezes a sucessão se dá pela prisão do marido, completa o advogado: "A mulher está assumindo papéis que ela não tinha antes, até no crime. Podemos dizer que o crime não é machista, aceita a pessoa, então a mulher está assumindo esses papéis (de liderança)".

65%

O incremento das mulheres nas facções no Ceará representou também o aumento de mulheres presas pelo crime de organização criminosa. Segundo dados da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), da SSPDS, 71 mulheres já foram detidas em flagrante pelo artigo 2º da Lei nº 12.850, entre janeiro e outubro de 2021. Em igual período de 2020, foram presas 43 mulheres. O aumento é de 65,1%.


Já o número de mulheres presas em flagrante por associação criminosa (artigo 288 do Código Penal Brasileiro) no Ceará diminuiu 29,7% em 2021. Foram 52 casos nos dez primeiros meses do ano corrente, contra 74 prisões em igual período de 2020.

Diario do Nordeste

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