Jericoacoara: acúmulo de algas gera mau cheiro e desconforto a turistas



 


Um grande acúmulo de algas na Praia de Jericoacoara, no Ceará, tem gerado mau cheiro e desconforto aos banhistas, moradores, empreendedores e visitantes de um dos principais pontos turísticos do estado.

A situação começou há cerca de duas semanas e atingiu uma larga faixa de areia da praia, conforme um comerciante da região. Ele, que preferiu não se identificar, lamenta a presença das algas, que tem afastado do mar a movimentação dos turistas recém-chegados, para as primeiras férias escolares de julho sem fortes restrições da Covid-19.

“Vários turistas reclamam que dá nojo de entrar no mar, está horrível mesmo, porque o lodo deixou tudo podre”, disse o comerciante e morador da Praia de Jericoacoara.

O secretário de Aquicultura e Pesca do município, Danilo Menezes da Silva, disse que a aparição das algas é uma ação natural que ocorre todo ano na orla devido às grandes marés e mudanças climáticas. “Trazem as algas e depois, em certos períodos de grandes marés e lua cheia, fazem a limpeza automática da orla”, disse o representante municipal.

A presença das algas, contudo, impacta negativamente no turismo do local, conforme o comerciante. “A gente está aqui só assistindo, ninguém faz nada. Esperam que a maré leve, e talvez leve mesmo, mas a gente não pode ficar esperando desse jeito. É muito feio para a praia. É muito feio para os turistas que vêm de férias e veem isso; não querem nem entrar no mar. Fica fedendo, fica uma coisa nojenta mesmo. Parece esgoto”, declarou.

A prefeitura de Jijoca de Jericoacoara estima que 120 mil pessoas passem pelo cartão-postal do Ceará neste mês. O morador de Jericoacoara disse que, para quem está próximo à praia, não sente tanto o odor, mas que é pior para quem está no mar. Já o secretário municipal reforça que o processo de retirada não pode ser feito de maneira impensada.

“Quanto aos questionamentos de retirada destas algas marinhas implica várias dúvidas. Se retirarmos estas algas, onde poderíamos colocá-las sem causar um impacto ecológico negativo? Queimá-las? Acredito que também seria um impacto ao meio ambiente ou crime ambiental”, complementou o secretário.

Para Danilo, o município teria de pensar em soluções ecologicamente corretas para o descarte das algas tendo em vista que a quantidade é significativa. “Hoje a única opção ecológica positiva é a espera da maré grande para levá-la de volta ao mar, onde as mesmas servirão de alimento para algumas espécies marinhas”, explicou.

Material não faz mal a humanos

Tommaso Giarrizzo, professor visitante do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) - Universidade Federal do Ceará (UFC), esteve em Jericoacoara, e conversou com o g1 nesta terça-feira. Ele explicou que o material não é maléfico aos seres humanos.

“As algas arribadas encontradas em Jericoacoara não são nocivas à saúde dos humanos e servem de alimentos para diversas espécies de animais e contribuem no aporte de matéria orgânica nas áreas de entremarés. A remoção delas da areia não é recomendada uma vez que o mar, com a ação das ondas e das correntes de maré, fará isso naturalmente”, explicou o especialista.

“As algas presentes nestas últimas duas semanas na praia principal de Jeri são algas arribadas, ou seja, algas que se desprendem naturalmente dos seus substratos por ação de tempestades, correntes e ventos e, na maré baixa, elas se concentram na faixa de areia. Aparentemente isso aconteceu nas marés da lua nova que ocorreu há aproximadamente duas semanas, quando as correntes de marés são mais intensas”, informou Giarizzo.

Ele reforçou que algas arribadas são comuns no litoral do Brasil. No Nordeste, junho e julho são os meses onde é mais recorrente este tipo de evento. Segundo ele, a matéria orgânica oriunda da degradação destas algas representa um importante aporto de energia para os ecossistemas marinhos.

“Existem mais de 100 espécies de algas arribadas no litoral do Brasil e ainda faltam estudos sobre a diversidade biológica, mas sem dúvida estes eventos têm grande importância ecológica, uma vez que nas algas são encontrados vários organismos que servem de alimento para várias espécies de peixes até de importância comercial”, declarou o professor, que é doutor em Ciências Naturais pela Universidade de Bremen na Alemanha.

Apesar da naturalidade do processo, o professor disse que a aparição em 2022 teve uma particularidade. “Esse ano foi um ano atípico que, devido ações de correntes e marés — provavelmente influenciando as direções de ondas específicas — favoreceram a acumulação de algas na praia principal”, explica Tommaso.


G1

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