Ceará: 83% dos municípios possuem plantação de caju



 Difundido amplamente na agricultura familiar, Ceará possui a maior área do País destinada a plantação de cajueiros, que tem a castanha como seu principal produto



Distante dos meses da quadra chuvosa, o segundo semestre é marcado pela forte presença da cajucultura no Ceará. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a Produção Agrícola Municipal (PAM) apontam que 153 dos 184 municípios cearenses estão ligados à produção estadual do fruto.

De acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do IBGE, até setembro de 2022, a plantação de caju ocupa 272.580 hectares (ha) do território cearense com áreas de produção. O número representa 64,06% da área em que se produz castanha-de-caju no Brasil (425.480 ha).

Para Regina Dias, supervisora de Estatísticas Agropecuárias do IBGE, a importância do caju para o Ceará é "imensa". Ela destaca que, além do Estado ser a principal Unidade da Federação produtora de castanha-de-caju, outros produtos são obtidos por meio dos cajueiros, como o pedúnculo do caju (parte que não é a castanha), o caju para mesa, o líquido da casca da castanha e a lenha.


O pedúnculo é, justamente, uma das partes da produção com maior utilidade, podendo ser aproveitado para o consumo in natura, fabricação de doces, sucos, polpa, além de outras produções, como refrigerante de caju, pratos doces e salgados, e até na fabricação de ração animal. Tal versatilidade faz com que ele tenha um alcance social e econômico significativo nos estabelecimentos agropecuários, segundo Regina Dias.

Agricultura familiar

Devido à safra do caju ser fortalecida durante o segundo semestre, período do ano em que as chuvas tornam-se mais escassas no Ceará, o investimento no plantio de cajueiro aparece como uma opção de renda para o pequeno e médio produtor fora da quadra chuvosa.

De acordo com o IBGE, no Estado, existem 25.430 estabelecimentos que cultivam castanha de caju, sendo 20.796 da agricultura familiar. Do total de estabelecimentos, 23.419 possuem área de menos de 50 hectares.

"É um importante fator de redução da pobreza, uma vez que a terra fica nas mãos de maior número de produtores. Então, envolve a geração de emprego, porque mesmo as pessoas que não cultivam castanha, podem trabalhar na colheita", destaca Regina Dias, supervisora de Estatísticas Agropecuárias do IBGE.

Cultura do caju no Ceará vive tendência de mudança

De acordo com o chefe de transferência de tecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Genésio Vasconcelos, a cajucultura no Ceará pode ser dividida em dois grupos: extrativista e tecnificada. A primeira tem sua base em plantas cultivadas ainda no século XX, que já não possuem grande eficiência.

"Como todo ser vivo, há uma curva de produção. Então, estamos falando de plantas com 50 ou 60 anos de idade, então já há uma debilidade de produção dessas plantas muito forte", explica Vasconcelos.

De acordo com o especialista, o tamanho dos cajueiros comuns já é um empecilho para o tratamento adequado da planta, pois podem atingir mais de 15 metros de altura. "Muitas vezes, não é possível aproveitar o pedúnculo, que é muito pesado, acaba caindo e rachando, não fica bom para ser consumido."

Por outro lado, a cultura tecnificada surge como uma opção mais rentável, além de apresentar uma maior possibilidade de cuidados com a árvore, chamada de cajueiro anão precoce. O nome faz juz às suas características, por ser bem menor que o tradicional, tendo, geralmente, menos de cinco metros, além de fornecer frutos de forma mais rápida, levando cerca de três anos.

Atualmente, cerca de 35% das áreas plantadas do Estado são de cajueiros anão precoce, sendo os outros 65% de cajueiros comuns. Vasconcelos acredita que o cenário passará por mudanças nos próximos anos.

"A tendência é que vá invertendo, umas (árvores) já estão mortas, outras no final da vida. Não cabe mais na nova economia a cajucultura extrativista. Ela deve ser tratada com técnicas agrícolas avançadas para que o produtor rural tenha uma maior produtividade e maior qualidade."

Questionado sobre como fazer com que pequenos agricultores tenham acesso às mudas com maior qualidade genética, Vasconcelos explica que o Governo do Estado já trabalha com a distribuição de mudas de cajueiro anão precoce.

De acordo com dados da Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Ceará (SDA), somente em 2022, 450 mil mudas de cajueiros foram entregues pelo programa Hora de Plantar, que chegou à sua 35ª edição neste ano. As mudas são entregues para agricultores cadastrados no sistema da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce).

Cajus nas prateleiras dos cearenses

Os tons de vermelho com mesclas alaranjadas chamam atenção de quem caminha pelos corredores do Mercado São Sebastião, e o cheiro no ambiente não deixa dúvidas de que chegou a safra do caju.

"Eu adoro quando chega esta época, eu adoro caju. O preço fica muito bom. Lá em casa, a gente usa pra fazer o suco. Eu moro aqui pertinho, quase todo dia estou aqui", conta a aposentada Fátima Barbosa, 69, ao comprar cerca de um quilo da fruta na quitanda administrada por Emanuel Araújo, 62 anos, que também celebra a chegada da época.

"A procura pelo caju sempre é boa. Hoje, eu estou vendo o quilo a R$ 5, antes ele tinha chegado a R$ 10 ou R$ 12. Tenho um freguês, aos sábados, que leva 20 kg para fazer doce", conta.

Em outro ponto do Mercado, Cristiano Moreira, 40, vende o quilo da fruta pelo mesmo valor. Ele relata que os seus clientes compram o produto para os mais diversos fins. "Caju é usado para tudo, pra comer, pro suco, tem gente que faz geleia, doce e até pra tira-gosto. É bem diversificado."


O Povo

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